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ESTAÇÃO POESIA - ANIVERSÁRIO (nascimento e morte) DE CECÍLIA MEIRELES

08/11/2007

ANIVERSÁRIO (nascimento e morte)  DE  CECÍLIA MEIRELES

 

Sete e nove de novembro: Homenagem à Cecília Meireles

 

 

 

Cecília Benevides de Carvalho Meireles nasceu no dia 7 de novembro de 1901.

Ficou órfã aos três anos de idade e foi criada pela avó materna.

Seu primeiro livro foi Espectros, em 1919.

Foi professora primária e, a partir da década de 30, lecionou Literatura Brasileira em várias Universidades.

Faleceu no dia 9 de novembro de 1964.

 

Um dos aspectos fundamentais da poética de Cecília é sua consciência da transitoriedade das coisas, assim, o tempo é personagem central de sua obra, pois ele é fugaz, rápido, fugidio.

 

 

Um pouco da sua Poesia...

 

 

“A vida só é possível reinventada”

(Poema Reinvenção)

 

 

Canção


Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...


Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.


Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

 

 

Motivo


Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.


Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.


Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.


Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.

 

Retrato


Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.


Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.


Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?

 

 

Desenho

Fui morena e magrinha como qualquer polinésia,
e comia mamão, e mirava a flor da goiaba.
E as lágrimas me espiavam, entre os tijolos e as trepadeiras,
e as teias de aranha nas minhas árvores se entrelaçavam 

Isso era um lugar de sol e nuvens brancas,
onde as rolas, à tarde, soluçavam mui saudosas...
O eco, burlão, de pedra, ia saltando,
entre vastas mangueiras que choviam ruivas horas. 

Os pavões caminhavam tão naturais por meu caminho,
e os pombos tão felizes se alimentavam pelas escadas,
que era desnecessário crescer, pensar, escrever poemas,
pois a vida completa e bela e terna ali já estava. 

Com a chuva caía das grossas nuvens, perfumosa!
E o papagaio como ficava sonolento!
O relógio era festa de ouro; e os gatos enigmáticos
fechavam os olhos, quando queriam caçar o tempo. 

Vinham morcegos, à noite, picar os sapotis maduros,
e os grandes cães ladravam como nas noites do Império.
Mariposas, jasmins, tinhorões, vaga-lumes
moravam nos jardins sussurrantes e eternos. 

E minha avó cantava e cosia.
Cantava canções de mar e de arvoredo, em língua antiga.
E eu sempre acreditei que havia música em seus dedos
e palavras de amor em minha roupa escritas. 

Minha vida começa num vergel colorido,
por onde as noites eram só de luar e estrelas.
Levai-me aonde quiserdes! - aprendi com as primaveras
a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira.

 

 

Leveza

Leve é o pássaro: 
e a sua sombra voante, 
mais leve. 
E a cascata aérea 
de sua garganta, 
mais leve. 
E o que lembra, ouvindo-se 
deslizar seu canto, 
mais leve. 
E o desejo rápido 
desse mais antigo instante, 
mais leve. 
E a fuga invisível 
do amargo passante, 
mais leve.

.

 

*Currículo: Jussára C. Godinho - Ju Virginiana - Professora - Formação em Licenciatura plena em Letras, Português e Espanhol. Acredito na Poesia como forma de educar para a vida! A Poesia é a própria Vida! O Poema é a tradução da Vida em palavras e rimas!