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LAERTE BRAGA - 1964 nas sombras - mas nem tanto

12/11/2008

1964 NAS SOMBRAS – MAS NEM TANTO
 
 
Laerte Braga*
 
 
Quem escuta o deputado jair bolsonaro falando imagina estar diante de um herói disposto a morrer pela “pátria amada” em defesa dos valores da “democracia”, da “moral” e dos “bons costumes”. E supõe que seja um sujeito corajoso, desses que enfrentam sozinhos uma tribo inteira de índios para defender mulheres e crianças da “barbárie”.
 
Não é bem assim, ou não é assim. Essa farsa que índios prendem, torturam, estupram e matam é deliberada, tem raiz em outros tempos e outros países (civilizações como os Incas, os Maias e os Aztecas foram eliminadas pelos “cristãos”). Prender, torturar, estuprar e matar é prática de regimes autoritários como a ditadura militar no Brasil e em vários cantos do mundo.  
 
bolsonaro é o típico corajoso cercado de seguranças por todos os lados e que se manifesta ou em palavras destemperadas típicas dessa gente ou nas câmaras de torturas, comuns durante a ditadura militar, principalmente as comandadas pelo seu parceiro brilhante ustra, um dos “símbolos” da verdadeira barbárie.
 
Estiveram juntos em 2007 quando da organização do “Partido Vergonha na Cara”, em Brasília. ustra e bolsonaro. Têm orgasmos múltiplos com essas expressões. “Vergonha na cara”, “pátria amada” e se comprazem em delírios nazi-fascistas nos choques elétricos, nos paus de arara, nos estupros e nos assassinatos com requintes de perversidade absoluta tipo adulto arrancando asa de passarinho para ver como é que fica. É o tipo mais torpe que se conhece. Doentio, pastinha ao absoluto.
 
A luta pela abertura dos arquivos da ditadura não tem caráter revanchista e nem pretende expor as forças armadas como instituição a um processo que as desmoralize. Esse tipo de argumento é usado exatamente por gente como bolsonaro para impedir que toda a covardia (essa sim é real) dos governos militares venha a público acabando com essa balela de “revolução” que não foi nada além de um golpe de estado. E mostrar que o “nacionalismo” dessa gente é fachada e fabricado em Washington, nos corredores da CIA (Agência Central de Inteligência), obedecendo a conveniências e interesses do IV Reich.
 
Quando do referendo sobre a proibição ou não de venda de armas a população civil bolsonaro foi um dos que atuaram insuflados e remunerados pela CIA para criar a sensação que desarmada a população estaria indefesa. Empresas fabricantes de armas e munições como a Taurus e a CBC assumiram publicamente que financiaram parlamentares durante o referendo. bolsonaro é um deles.
 
Em discurso que fez no Clube Militar no Rio de Janeiro o deputado/capitão/torturador chegou a afirmar que o “grande erro da ditadura militar foi o de não ter matado a todos os terroristas” que prendeu.
 
bolsonaro é só uma ponta, a visível, dos corredores sombrios e tenebrosos que permeiam esse mundo em que o ser humano, nesse espantoso complexo de modelo político/econômico e mídia, vai sendo transformado  em ser objeto, o que se resigna e aceita tudo como normal, acreditando piamente na ordem constituída segundo a asquerosa estrutura de dominação e exploração pela violência e pela estupidez, vestidas de “democracia” e “patriotismo”.
 
Tanto se apresenta na forma “bolsonaro”, como na versão untuosa e imunda padrão Zé Pastinha.
 
A série de crimes cometidos pelos invasores de terras indígenas em Reserva Raposa do Sol não tem limites a começar pela própria invasão. Diferente de ocupação. Não são poucos os registros de violências e atos de boçalidade cometidos por pistoleiros contra indígenas e acima de tudo contra índias naquela região.
 
A fúria desse tipo de gente contra a demarcação das terras indígenas tem só a fachada de defesa da integridade do território nacional e da nossa soberania. Na prática esconde interesses de grandes empresas. Começa a fabricar um “líder nacionalista”, o general augusto heleno, comandante militar da Amazônia. Vendem a imagem de um militar íntegro e nacionalista que corre a falar para empresários da FIESP/DASLU (um país vizinho enclavado em São Paulo – que mantém sob controle e apenas fala a mesma língua que a nossa).  
 
Na soma dos interesses de quadrilhas que operam a VALE, a ARACRUZ, os grandes bancos, as chamadas grandes empresas, os especuladores e os latifundiários, os que compraram o patrimônio público brasileiro vendido no governo fernando henrique, essa gente infiltra-se em todo o Estado brasileiro e cria a mesma imagem dos “libertadores” de 1964. Escondem os verdadeiros interesses e o que de fato representam.
 
Um dos pontos principais do AI-5, o golpe dentro do golpe, foi quebrar, por exemplo, a resistência do Supremo Tribunal Federal, inclusive cassando ministros independentes e do porte de Evandro Lins e Silva, Hermes Lima e Victor Nunes Leal. Foram sendo substituídos por figuras dóceis e controláveis. Até o ponto em que a Suprema Corte vira stf e vem a ser presidida por gilmar mendes, comprometido até a medula com o processo corrupto de hoje, registrando páginas lamentáveis protagonizadas por ele gilmar, ou por nelson jobim, estranhamente ministro do governo Lula.
 
E por outros, evidente.
 
Chegam ao congresso não só nas figuras repulsivas caso de bolsonaro, mas nos untuosos padrão fernando gabeira. Os que parecem ser, só parecem.
 
Esse tipo de gente anda pelas sombras. Divide mesa com vítimas que muitas vezes sentem-se regozijadas com presenças “ajudadoras”. Sorri enquanto esfaqueia ou espuma enquanto tortura (e são várias as formas de tortura).
 
Mas existe e nas sombras produz fatos e constroi “verdades” que precisam ser desmistificadas.
 
Abrir os baús da ditadura, expor as vísceras de um regime brutal e violento em sua gênese é imperativo para que se conheça a história em sua totalidade e realidade, não apenas na versão oficial, ou nas entrelinhas aqui e ali de um ou outro dado.
 
O fato de bolsonaro ser de extrema direita, em si é uma coisa.  Mas o fato de ser um torturador, porta-voz da tortura, torna-o incompatível com um congresso que pretenda o mínimo de respeito.
 
bolsonaro já foi chamado de “cavalão” em seus tempos de quartel. De “barão do pau de arara” por suas aptidões e seu prazer no exercício do ofício de torturador.
 
O dilema real e efetivo do governo Lula hoje é aceitar ser um período acidental de um ou outro avanço e mesmo assim sem conseqüências maiores, pois fácil de ser revertido no próximo período (serra está aí esperando a hora de entrar e passar a escritura do país para os donos reais). Ou assumir, ainda que restem só dois anos e seis outros tenham sido perdidos, o compromisso de resgatar a perspectiva da luta e da construção de um Brasil de fato livre e soberano.
 
Do contrário, cedo ou tarde cairemos em mãos de “líderes” monitorados para além da farsa democrática, caso do general augusto heleno.
 
Novembro traz a lembrança de um chefe militar notável, o marechal Henrique Dufles Baptista Teixeira Lott. A verdadeira dimensão do militar comprometido com a democracia sem adjetivos e a virtude do respeito aos contrários.
 
O que se assiste no Brasil hoje, inclusive a reação dos golpistas no caso da Operação Satiagraha, em toda a sua dimensão, mostra que 1964 permanece vivo nas sombras, mas nem tanto.
 
O momento atual do País me lembra uma explicação de Monteiro Lobato, comum, sobre a jibóia engolindo um boi. Num instante da “degustação” a cabeça do boi fica de fora. Lula está com a cabeça de fora e a jibóia que se apresenta sob várias formas, desde um mequetrefe bolsonaro a um mais graduado augusto heleno, ou a um gilmar mendes, um josé serra, começa a engolir a cabeça. É a fase final do golpe que ainda mantém a aparência democrática, deve mantê-la, pois tem tido ganhos esplêndidos em todos os sentidos, mas é um golpe.
 
E engolir Tarso Genro, sem análise de mérito das muitas mancadas do ministro, é um dos objetivos da jibóia.
  

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*Jornalista