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FREI BETO - Mercado da Fé

31/05/2009

Mercado da Fé

Frei Betto*

Como os supermercados, as  Igrejas disputam clientela. A diferença é que eles oferecem produtos mais  baratos e, elas, prometem alívio ao sofrimento, paz espiritual, prosperidade e  salvação.

 Por enquanto, não há confronto nessa competição. Há,  sim, preconceitos explícitos em relação a outras tradições religiosas, em  especial às de raízes africanas, como o candomblé e a macumba, e ao  espiritismo.

 Se não cuidarmos agora, essa demonização de  expressões religiosas distintas da nossa pode resultar, no futuro, em atitudes  fundamentalistas, como a “síndrome de cruzada”, a convicção de que, em nome de  Deus, o outro precisa ser desmoralizado e destruído.

 Quem mais  se sente incomodada com a nova geografia da fé é a Igreja Católica. Quem foi  rainha nunca perde a majestade... Nos últimos anos, o número de católicos no  Brasil decresceu 20% (IBGE, 2003). Hoje, somos 73.8% da população. E nada  indica que haveremos de recuperar terreno em futuro  próximo.

 Paquiderme numa avenida de trânsito acelerado, a Igreja  Católica não consegue se modernizar. Sua estrutura piramidal faz com que tudo  gire em torno das figuras de bispos e padres. O resto são coadjuvantes. Aos  leigos não é dada formação, exceto a do catecismo infantil. Compare-se o  catecismo católico à escola dominical das Igrejas protestantes históricas e se  verá a diferença de qualidade.

 Crianças e jovens católicos têm,  em geral, quase nenhuma formação bíblica e teológica. Por isso, não raro  encontramos adultos que mantêm uma concepção infantil da fé. Seus vínculos com  Deus se estreitam mais pela culpa que pela relação  amorosa.

 Considere-se a estrutura predominante na Igreja  Católica: a paróquia. Encontrar um padre disponível às três da tarde é quase  um milagre. No entanto, há igrejas evangélicas onde pastores e obreiros fazem  plantão toda a madrugada.

 Não insinuo assoberbar ainda mais os  padres. A questão é outra: por que a Igreja Católica tem tão poucos pastores?  Todos sabemos a razão: ao contrário das demais Igrejas, ela exige de seus  pastores virtudes heróicas, como o celibato. E exclui as mulheres do acesso ao  sacerdócio. Tal clericalismo trava a irradiação evangelizadora.

 O  argumento de que assim deve continuar porque o Evangelho o exige não se  sustenta à luz do próprio texto bíblico. O principal apóstolo de Jesus, Pedro,  era casado (Marcos 1, 29-31); e a primeira apóstola era uma mulher, a  samaritana (João 4, 28-29).

 Enquanto não se puser um ponto  final à desconstrução do Concílio Vaticano II, realizado para renovar a Igreja  Católica, os leigos continuarão como fiéis de segunda classe. Muitos não têm  vocação ao celibato, mas sim ao sacerdócio, como acontece nas Igrejas  anglicana e luterana.

 Ainda que Roma insista em fortalecer o  clericalismo e o celibato (malgrado os escândalos frequentes), quem conhece  uma paróquia efervescente? Elas existem, mas, infelizmente, são raras. Em  geral, os templos católicos ficam fechados de segunda à sexta (por que não  aproveitar o espaço para cursos ou atividades comunitárias?); as missas são  desinteressantes; os sermões, vazios de conteúdo. Onde os cursos bíblicos, os  grupos de jovens, a formação de leigos adultos, o exercício de meditação, os  trabalhos voluntários?

 Em que paróquia de bairro de classe média  os pobres se sentem em casa? Não é o caso das Igrejas evangélicas, basta  entrar numa delas, mesmo em bairros nobres, para constatar quanta gente  simples ali se encontra.

 Aliás, as Igrejas evangélicas sabem  lidar com os meios de comunicação, inclusive a TV aberta. Pode-se discutir o  conteúdo de sua programação e os métodos de atrair fiel. Mas sabem falar uma  linguagem que o povo entende e, por isso, alcançam tanta audiência. 

 A Igreja Católica tenta correr atrás com as suas showmissas, os  padres aeróbicos ou cantores, os movimentos espiritualistas importados do  contexto europeu. É a espetacularização do sagrado; fala-se aos sentimentos, à  emoção, e não à razão. É a semente em terreno pedregoso (Mateus 13,  20-21).

 Não quero correr o risco de ser duro com a minha própria  Igreja. Não é verdade que ela não tenha encontrado novos caminhos.  Encontrou-os, como as Comunidades Eclesiais de Base. Infelizmente não são  suficientemente valorizadas por ameaçarem o clericalismo.

 Aliás,  as CEBs realizarão seu 12º encontro intereclesial de 21 a 25 de julho deste  ano, em Porto Velho (RO). O tema, “Ecologia e Missão”; o lema, “Do ventre da  Terra, o grito que vem da Amazônia”. São esperados mais de 3 mil  representantes de CEBs de todo o Brasil.

 Bom seria ver o papa  Bento XVI participar desse evento profundamente pentecostal.

* Frei Betto é escritor, autor, em parceria com Leonardo  Boff, de “Mística e Espiritualidade” (Garamond), entre outros livros. 


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