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PEDRO PAULO MATOS - Romero e Wilson. O Banco

02/05/2010

Romero e Wilson. O Banco

 

Olá, meu nome é Romero, sou estudante universitário, curso Administração. Venho do interior, meus pais se esforçaram muito para que eu tivesse esta oportunidade, mas como eles são pessoas humildes, por isso, estou morando numa residência universitária, dividindo o apartamento com um colega, Wilson.

 

 

-          Romero, caramba, desliga isso ai! - Reclama Wilson ao ser acordado pelo despertador do colega Romero

-          Já estou desligando, você deveria me agradecer, também tem de ir ao Banco, não é? - Comenta Romero.

-          Vou agora não, deixo pra mais tarde;

-          “Ta”, até mais.

-          Até. – Aqui Wilson finaliza temporariamente a conversa.

 

Romero se arruma para chegar ao Banco, pensa que sendo um dos primeiros a chegar, terminará logo com tais obrigações, tendo mais tempo para cumprir seus outros deveres. Não demora muito e está ele esperando na parada para “pegar” um ônibus, assim como muitas outras pessoas que acordam cedo por inúmeros outros justificáveis e laboriosos motivo.

Depois de estar num ônibus normalmente lotado, desembarca em seu destino de forma tranqüila, dá bom dia a uma senhora muito simpática, simpatia somente presente em pessoas que tem a profunda idéia do valor de cada sorriso, passa por algumas ruas para então chegar finalmente ao Banco.

 

-          Eita, está cheio. Ainda bem que cheguei cedo, pois, pelo visto, vai demorar pra que seja atendido. Reflete Romero após ver a fila do lado de fora do Banco, pessoas que como ele anseiam por resolverem logo os seus problemas.

 

No momento em que pronuncia esse pensamento uma senhora que está à sua frente olha para o nosso colega e solta-lhe um daqueles sorrisos de adesão a ele, que também significa que concordará com qualquer coisa que ele diga, embora mais nada escutara com atenção, na verdade nem escutou, pois como esta senhora abomina filas, achou excelente alguém reclamando de algo (digo senhora por costume, pois ela aparenta trabalhar de forma tão árdua como o quanto fazia em sua terna juventude, embora deva reclamar mais das dores da labuta do que o fazia antigamente).

 

-          Está é a fila do caixa? Pergunta o cuidadoso Romero a um segurança do Banco, vindo a escutar uma resposta seca, útil, nada estranha quando vinda de uma autoridade.

-          Sim.

-          Preciso pegar ficha?

-          Sim.

-          Obrigado. Agradece Romero, em retribuição o guarda acena-lhe de forma tênue, nada diferente do que uma pessoa com as suas atribuições e responsabilidades faria.

 

 

O atendimento dos caixas ocorria de forma moderada, embora tivessem seu trabalho atrasado por aqueles que gostam de conversar, gente de certa idade que sabe com sua experiência que mais vale viver ao redor de pessoas desconhecidas do que alheia a tudo e a todos.

Ocorre que, inesperadamente, o sistema de senhas não estava estabilizado, o que acarretou em diversas quedas, a cada queda o sistema era reiniciado e as pessoas com prioridade assumiam a ponta de fila, evento repetido várias vezes.

 

-          Poxa, não acredito toda vez em que chega perto de ser atendido este sistema cai. Instiga o incomodado Romero esperando um daqueles sorrisos de adesão, mas a mesma senhora que outrora soltara-lhe apoio, abandona-o a indiferença por ser a próxima a ser chamada.

-          É complicado, dá não, olha ai, esse senhor ficou 5 minutos aqui no Banco, eu estou a quase uma hora. Brota uma daquelas vozes surgidas a esmo e que de lá não tem muita vontade de sair.

-          É, já estou p*** da vida. Outra voz oriunda possivelmente da penumbra que, de diferente das outras, tinha as tatuagens nos dedos de seu portador, mania própria de quem já esteve preso.

 

Depois de cinco quedas de sistema, ou duas horas, Romero é impreterivelmente atendido, sua missão era a de descontar um cheque recebido em virtude de algumas aulas particulares dadas para uma aluna de supletivo.

 

-          Não é possível, senhor, sacar esse cheque. Informa o funcionário do Banco.

-          Não está tudo certinho não? Questiona Romero

-          Não, a pessoa que fez o cheque não colocou em que moeda era o valor, colocou aqui, simplesmente, 125, 00 está vendo?

-          Não acredito, que azar!

-          É, olha, venha aqui amanhã pela manhã e peça para falar comigo, você não precisará pegar fila, mas traga esse cheque com a referência da moeda. Conforta o prestativo funcionário.

-          Não podemos fazer isso agora? Não irá mudar nada. Idealiza Romero.

-          Não, não podemos, é ilegal, olha, se você trouxer isso com cor de caneta diferente ou com escrita não semelhante, esse cheque não terá valor.

-          Não, nem se preocupe, trago tudo certo amanhã.

 

Romero, sabedor que nem tudo foi perdido e que, ao menos amanhã não precisará pegar fila, volta para casa, ficando feliz pelo fato de pegar na volta um ônibus mais vazio. Ao chegar em casa, encontra Wilson, vendo um programa matinal de Tv.

 

-          Cara, o Banco está cheio, é melhor você se apressar. Aconselha Romero.

-          Preciso não, já fui e voltei.

-          Como?! Eu sai cedo e só cheguei agora.

-          É que a Manu, sabe? Aquela morena, amiga sua, passou por aqui para falar com você, como ela estava de carro aproveitei e pedi carona. Responde o predestinado Wilson.

-          Deu sorte cara.

-          Mas não foi só isso, arrumei um emprego.

-          Como?

-          Quando cheguei no Banco, o sistema de senha deles estava com problemas, o estagiário, que era o responsável pela manutenção, não sabia o que fazer, eu me ofereci a ajudar, e dei um jeito na situação, o gerente me ofereceu o emprego, eu aceitei.

-          Mas você nem gosta de Banco, aliás, o que você estuda não tem nada a ver. Lembra o incrédulo Romero

-          É, eu disse isso para ele, mas ele insistiu.

-          Que sorte a sua.

-          Sorte mesmo foi a de voltar a tempo para ver o desenho animado.

 

 

 

 

P.S. A respeito do texto anterior, Blade Runner, No fio da Navalha, é certo que não era um texto convencional, sendo, até certo ponto “ilógico”, minha esposa disse “que estranho, você escreveu para você mesmo?”, mas, como disse a ela, e digo agora a vocês, leitores, não há como se voltar a um vício de forma ponderada, pois, um marido apaixonado não se contentará com beijos ao reencontrar suas esposa depois de meses de ausência, o alcoólatra inveterado, caso ceda ao vício, não se contentará com copo de cerveja, da mesma forma que eu, que amo escrever, não poderia ter na minha reestréia nada diferente do que foi, tinha que ser algo íntimo e do meu mais profundo gosto. Até... Boa semana a todos.


Comentários

situação chata, não? detesto banco mas não sou wilson, rsrsrs

Gostei desse novo texto e da sua ressalva sobre o texto anterior. Por que, cá prá nós, acho que poucos entenderam teu propósito.