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PEDRO PAULO MATTOS* - Ó, Roda! Ruídos intermináveis.

01/07/2010

Ó, Roda!  Ruídos intermináveis.

 

Não estou aqui a divulgar o espetáculo, “a vida como ela é”, o que já foi consolidado, o belo, meus contos se destinam a expor a natureza humana sob uma determinada realidade. Ficção? Prefiro pensar que escrevo sobre diferentes pontos de vistas acerca de questões, de problemas que podemos ter de enfrentar. De igual modo não planejo restrições de qualquer natureza, não corromperei minhas palavras para satisfazer a paz de alguns que, numa esperança vã, acreditam que certos atos, palavras e pensamentos estão exilados da sociedade. Não haverá de minha parte ao escrever estes contos qualquer forma de colaboração com a mediocridade da omissão, muito menos cooperarei com formadores de opinião que não tem sensibilidade para as diferenças. Também não há espaço para a intolerância, principalmente contra as intolerâncias da vida, aqui florescerá de tudo, não me compete realizar julgamento de temas por plena incompetência para dizer o que deve e o que não merece ser escrito, sou apenas um ser interlocutor de idéias, não importando a procedência.

 

A vida é algo instável, frágil, desequilibrado, fosco, que depende da boa vontade alheia. Pensando assim, viver nada mais seria do que um fardo melancólico um tanto assustador, mas, por humana sorte, temos a nosso favor um desajuste, o esquecimento, e uma ilusão inata, a esperança. Vivemos esquecendo que iremos morrer ou na esperança de viver mais, independente da finalidade que buscamos em nossas vidas. De certo que há os desesperados, que tentam terminar com a sua vida, mas tais casos são os acasos patológicos, são exceções que não respondem a regra da vida, dignas de outros textos, não deste.

 

Parte 1 – Viver

 

Costumo descansar numa praça localizada perto de minha residência, ela possui cerca de duas dúzias de árvores, bancos de concreto, mesas com tabuleiros para dama ou xadrez, alguns equipamentos de ginástica que servem as pessoas que se exercitam no local; a praça deve ter perto 500 metros quadrados. Gosto de observar a paisagem, árvores, pombos, pessoas, tudo sendo parte de uma rotina que nem sempre é apreciada, que nem sempre traz algo de especial.

Ultimamente, um grupo de jovens veio a freqüentar tal praça, não sei ao certo o que são, quem, ou de onde surgiram; mas certo é que se portam de maneira indesejada, escutam música numa altura insuportável, são mal educados: gritam, sujam, ofendem. Se já não bastasse a sujeira produzida por suas garrafas, copos, sacos, eles teimam em urinar nas árvores, postes, muros...

Outro dia esses jovens desentenderam-se com um casal. Uma moça voltando do trabalho foi incomodada por estes rapazes, como não correspondeu foi ofendida, instantes depois o namorado foi “tirar satisfação”, em virtude disso acabou recebendo um ou dois tapas e, se não fosse suficiente, teve de ouvir que a sua namorada gostou dos elogios e que precisaria de um sujeito “mais homem”.

Eles escutam suas músicas prediletas em uma altura insuportável. Mais perturbador do que o barulho ensurdecedor é a quebra da paz, cada ser humano tem seu espaço, seu corpo, isto é uma clara agressão, atingisse tanto o homem quanto o corpo, tanto suas tarefas quanto suas orelhas, tanto seus hábitos quanto sua dormida. Odeio estes que esbulham o que é do outro por direito. 

Direito, palavra complexa, uns ao se confrontarem com a palavra dizem que é a ciência que estuda as regras de convivência na sociedade humana, outros, de personalidade mais empírica, afirmam que é seguir o que é legal, aquilo que é justo, correto, honesto. Para mim? Dar a César o que é de César.

Ah, como seria bom que algo lhes acontecesse, alguém que compartilhasse de minha raiva, que quebrasse seu carro, deformasse suas caras, que os arrastassem pelas orelhas até que estas ficassem roxas. Essa gente pobre de espírito, escória, frutos podres de um mundo libertino, reis de um reino onde o mau gosto domina. Como eu os odeio. Idiotas, vermes! Sei que não são os únicos, mas são eles os que realmente eu odeio.

Jovens? Atos pequenos? Para quem? Para mim não, de forma alguma, me tiram o que sou; não me permitem praticar a minha existência, a minha individualidade, meus hábitos, eu... Eles desperdiçam suas energias em desocupação num país tão carente de pessoas que se dediquem a algo, tenham atitude, não preciso ter de aturar quem não tenta e que faz de sua desistência uma agressão aos que não compartilham de seus gostos, desatinos, fraquezas.

A existência, o viver, até que ponto é uma dádiva ou até que ponto é um merecimento?

 

Parte 2 – Silêncio

 

Ao que parece os jovens mencionados anteriormente encontram-se numa situação diferente. Diferente, como assim?

 

- Que dor de cabeça, onde estou?

- Jorge, acorda, acorda cara, você está bem?

- Estou bem, meu Deus, onde estamos?

- Isso é um galpão?

- Alguém pode nos escutar, socorro!

 

Uma sucessão de gritos toma o ambiente, a sensação de vazio nos nossos jovens superava a tentativa de existência das vozes confusas. Lembram-se, somente, de estarem juntos, situação que de fato permanece, sendo que agora amarrados a vigas.

 

- Não agüento mais gritar, Manoel, cadê teu carro, alguém sabe o que aconteceu?

- Não cara, minha cabeça ainda dói, não adianta mais gritar, nem sei se estou com meu celular, amarrado desse jeito não consigo me mexer.

- Por favor, socorro!

 

Surge, após tantos gritos e pedidos de ajuda, alguém por detrás de uma sombra.

 

- Algum problema, o que vocês estão fazendo aqui?  (Pergunta o “visitante”)

- Por favor, nos tire daqui. - Deus, obrigado, chegou ajuda.  (Festejam, aliviados, os jovens.)

- Tirar você? Quem colocou vocês nesta situação deve ter seus motivos. (Retruca o “visitante”)

- Cara, que história é essa? Tire-nos daqui, por favor, logo! - Me tira daqui! (Suplica Márcia, um dos jovens “retidos”).

- Calma Márcia, tudo será resolvido.

- Não sei se devo. Vocês devem ter feito algo, mas se vocês me disserem o que fizeram, saberei que tipo de pessoas vocês são, e, só então, soltá-los. (Explica o “visitante” após limpar seus óculos e olhar seu relógio)

- Senhor, escute, não sabemos o porquê disto, não fizemos nada a ninguém.

- Por favor, nos solte.

- A pessoa que prendeu vocês que os solte, não é assunto meu. (Conclui, temporariamente, o “visitante”).

 

O “visitante” retira-se, o clima de dúvida é a única certeza. O medo surge como um grande farol na visão desses garotos, a confusa situação apresenta-lhes a gravidade da ocorrência, pois, estar amarrados não é pior do que desconhecer o motivo.

 

- Jorge, será que foi por causa daquele “lance” com a moça e o namorado?

- Não é possível! Aquilo ali foi só uma “brincadeira”.

 

O “visitante” retorna ao local, parece que sua saída foi com o fim resolver um pequeno problema, pegar alguma informação, beber um café, quem sabe escutou alguma ordem...

 

- Escutem rapazes, terei de sair, volto em duas horas, caso vocês ainda estejam aqui e me disserem o porquê de vocês estarem nessa situação, ai poderei soltar vocês.

 

Estafados, os aprisionados, não tinham ânimo para gritar, pedir ajuda, reinando o silêncio, não havendo barulho, certezas, de certo que a esperança ainda existia, seja na volta daquele obtuso “visitante”, seja na fé de sair daquela situação, pois se alguém lhes queria fazer mal, possivelmente o que ocorria já era o pretendido.

 

- Vocês já sabem por que estão aqui? (Perguntou novamente o “visitante”)

- Achamos que sim, chegamos à conclusão de que... (Marcelo, dá uma pausa com o intuito de acalmar-se, servindo também como momento de reflexão, pois, para ele, tudo aquilo era sem propósito) um dia desses nos tivemos uma confusão com um rapaz, por causa de um problema com a sua namorada.

- Somente isso? Só fizeram isso? Acho que não há motivo para uma pessoa por mais extrema que fosse se prestasse a prender vocês nesta situação, acho que vocês estão omitindo alguma coisa.

- Olha aqui, deixa de brincadeira e nos solte daqui, “cara”, olha a nossa situação.

- Foi você que nos amarrou aqui? (Não é que a presença do “visitante” não fosse objeto de suspeita desde o início, mas, só agora, os jovens, quase certos da participação deste, abrem o jogo com o visitante).

- Não! Na verdade eu só fui o instrumento, quem provocou isto foram vocês, não planejei nada, apenas obedeci a ordens. (Esclarece o “visitante” a sua real condição, embora que de uma forma um tanto enigmática).

- Seu desgraçado, me tira daqui, meu pai é Coronel reformado do Exército, se você fizer algo com a gente você está “fudido”, entendeu? Meu pai te encontrará, não adiantará se esconder. (Ameaça o jovem chamado “Jorge”).

- Calma, calma, pessoal, Senhor, por favor, nos diga o que fizemos, queremos pedir desculpas e, se possível, arrumar as coisas para todos. (Pede o jovem chamado “Marcelo”).

- Já disse, eu não sei. Esqueci de falar para vocês que devido os meus afazeres e como na vida há uma ação e a correspondente reação, já que tive muito trabalho ao ser instrumento de tudo isso, me foi oferecida uma dádiva: ser o juiz do caso de vocês, digo de antemão que sou uma pessoa benevolente e a única coisa que quero de vocês é que digam a verdade sobre estarem aqui.

- Desculpem, esqueci de outro detalhe, como não me foram dadas receitas para executar tal tarefa, não será de minha responsabilidade alimentar vocês, dar água ou qualquer outra necessidade, então o quanto mais rápido isso se resolver, melhor. Como disse, não recebo, mas mesmo assim tenho horários, vocês tem 4 horas por dia para me convencer, caso contrário, só no outro dia e assim por diante.

 

Continua...

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Meu Blog (neste espaço há extras, impressões, dúvidas e curiosidades que envolvem este filme)

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*Formado em História pela UFPB. Nasci em Recife, com muito orgulho; passei minha vida toda em João Pessoa, por privilégio; e agora vivendo em Campina Grande, sorte grande!


Comentários

Falar do texto do meu esposo é ter a certeza do quanto ele é apaixonado pelo que faz, amor, ficou otima esta sua divisão textual. bjos.