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PEDRO PAULO MATTOS* - Incômodo

17/10/2010

Parte 4 – Incômodo

 

Marcelo ao se deparar com tais respostas decidiu ficar em silêncio na tentativa de buscar em sua mente a razão, também pensou nas respostas ditas pelo “magistrado”, mas nada lhe vinha à cabeça. Eis que Jorge, o jovem mais exaltado, surge a ofender tudo o que estava acontecendo, destilando todo seu descontentamento com o que estava se passando.

 

- Silêncio, (disse o “magistrado”) você por tais desaforos e por tentar criar desordem a algo que interessa também aos outros, será, portanto, sumariamente punido. (O “magistrado” abre sua mala, retira delas alguns itens, os põe no chão, eram um pano grosso, um “MP 3 Player” e um rolo de fita adesiva).

 

- Como punição cautelar, visando o bom andamento do julgamento, o Senhor Jorge irá usar estes itens até o momento da divulgação da sentença, sendo seu direito ouvir o resultado da contenda.

 

O “magistrado” levanta-se, indo em direção a Jorge, apesar dos gritos dos outros aprisionados, primeiro tampa-lhe a boca com boa quantidade de pano, fazendo com que não falasse mais, a seguir pega o aparelho de som, coloca em suas orelhas e o prende com a fita adesiva.

 

- Para vocês que desconhecem a amplitude desta punição, pois aposto que seu colega se deu conta do quanto foi equivocado em suas palavras, o aparelho de som está ligado no máximo e o seu fornecimento de energia é feito pela rede elétrica.

 

Márcia começa a gritar de forma desesperada, pedindo ajuda, a situação saiu definitivamente do controle, não estava mais suportando a sua condição, gritava por ajuda com o resto de suas cordas vocais.

 

- Quietos, ao que parece não têm respeito por mim e não estão aproveitando a oportunidade que lhes dei de saírem daqui por meio de um processo justo, Senhorita Márcia, por tão irritante comportamento também receberas punição deste tribunal.

 

O “magistrado” sai do ambiente, Márcia agora chora e olha para cima como se estivesse a espera de algo que pudesse intervir por ela, enquanto Marcelo apenas estava com o rosto voltado para o chão, já Jorge não se concentrava em nada, virava a cabeça de um lado para o outro, tamanha a sua agonia. O “magistrado” volta ao recinto carregando uma bacia de metal, retira da mala uma corda e uma tesoura, Marcelo olha apreensivo o momento em que aquele se aproxima de Márcia, afrouxa um pouco as amarras, o suficiente para que ela pudesse ser erguida na viga, rasgou-lhe as roupas, colocou-a sobre a bacia, apertou-lhe os nós e a posta sentada, terminado o serviço proferiu a integridade da pena.

 

- Márcia, não é por sua condição de mulher que irias receber tratamento diferenciado, não lhe foi dada tal prerrogativa. A penalidade sofrida consiste em ter de conviver com sua própria sujeita, e se você se proferir de maneira desrespeitosa a este ou qualquer outro procedimento, sofrerá novas conseqüências.

 

O “magistrado” sentou-se em sua cadeira, pegou um banco velho que já utilizara anteriormente para escrever o nome dos acusados e prendeu-se a escrever algo, nem ao menos olhava para os jovens.

 

- Vossa Excelência, (chama-o Marcelo) como isso é um julgamento, onde está o nosso advogado de defesa?

 

O “magistrado” olha para o jovem, põe a mão na testa, parece incomodado ao ter de dar atenção ao que foi dito, mas se vê obrigado, por sua posição, a responder tal questionamento.

 

- Isso é sim um julgamento, não duvide nunca disso, mas esse tribunal é preso só ao que realmente é importante, essencial, como podem notar pela busca da economicidade, não usamos de ambientes luxuosos, até porque não deveriam existir pompas quando se analisa algo nocivo a todos como um crime, se a pessoa for inocente que se conforte com a sua liberdade e não com nossas instalações, se for culpada, o possível mal proporcionado por esse ambiente será a menor de suas provações. Quanto a sua pergunta, veja bem, qual a necessidade de um advogado de defesa? A melhor forma de provarem a sua inocência é falando a verdade, basta ela para ser inocente, a única utilidade de um advogado aqui seria a de corromper o nosso sistema, que é baseado na honestidade e não em conhecimentos oportunistas de gente que somente quer escapar de suas responsabilidades.

 

- Certo. Para o nosso crime qual seria punição? Afinal todo crime deve ter uma punição correspondente.

 

- Você está certo, o problema é que não sabemos qual é o crime, isso vocês têm que me dizer.

 

- Se for assim, já deveríamos estar livres, pois se não há crime, não há punição.

 

- Vejo Senhor Marcelo, que subestimas esse tribunal. De acordo com nossa investigação vocês são autores de algumas atitudes nocivas ao bem-estar, mas nossa investigação não é incumbida de relatar os fatos, só os efeitos, quem relata os fatos são os réus, você pode estar estranhando, por ignorância, nosso sistema legal, mas concluímos que essa é a forma mais verdadeira de absolvição, pois nossa pretensão aqui é absolver, não punir. De que adiantaria julgar suas atitudes se você as desconhece, melhor é relatar o que suas ações provocam, para que assim possam entender quais são suas atitudes recrimináveis e evoluírem a partir deste analise. Se fosse para julgar pelos atos, vocês já estariam sentenciados.

 

- Isso é loucura, então uma pessoa fala o que quiser e vêm ao “senhor” que toma tudo como verdade? Não diz os fatos e quer nos punir sem o “senhor” também saber, quem fez o julgamento foi quem falou ao “senhor”, não você e muito menos nós. (A impaciência toma conta de Marcelo, visivelmente contrariado com as respostas dadas neste julgamento).

 

- Honestamente, Senhor Marcelo, não tenho de justificar o nosso sistema processual para uma pessoa que é réu, como todo réu quer que o processo tenha um andamento que lhe beneficie, mas digo-lhe Senhor Marcelo, vocês e seus amigos têm mais sorte do que azar, pois o sistema judicial a que estão acostumados não dá as oportunidades que lhes oferecemos.

 

- Você está louco, você criou essa palhaçada e fica arrotando devaneios, isso aqui não é justiça, é arbitrariedade.

 

- Chega! Basta!

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Continua...
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*Formado em História pela UFPB. Nasci em Recife, com muito orgulho; passei minha vida toda em João Pessoa, por privilégio; e agora vivendo em Campina Grande, sorte grande!