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A polêmica musical, a ideologia e o Mercado

24/04/2011

Para variar, chegamos ao Domingo de Ramos, da Semana Santa, ainda abrigando ecos em torno da polêmica criada com as declarações do Secretário de Cultura da Paraíba, Chico César, ao revelar que o Governo não contratará nenhum artista, nenhuma banda advinda da música produzida pela vertente do forró eletrizado – denominado de “de Plástico”.
 
Impressiona como a nossa polêmica só produz divisão e até agora nada acrescentou enquanto crescimento coletivo, mesmo em nome de causas e valores de segmentos importantes de nossa sociedade musical .
Ao invés de valorizar as diferenças promovendo trato especial a quem mais merece por fatores, que não são só de qualidade estética, mas de preservação de nossa identidade e de produção, expomos a xenofobia com sentimento odiento pouco acrescentando no crescimento do nosso processo coletivo macro.
A política de governo numa sociedade
Na sociedade moderna, em qualquer que seja a presença do Governo, esta só faz sentido se servir para promover políticas que resolvam e/ou atenuem problemas das várias faixas sociais, como sempre privilegiando os mais humildes porque a carência desse segmento se faz urgente. Daí a necessidade do pronto socorro ser indispensável, a escola gerar formação profissional e técnica, etc.
Mesmo assim, qualquer Governo não pode ignorar as outras faixas sociais. Precisa dialogar e atender bem as demandas da classe média, esta sempre no sanduíche entre pobres e ricos, bem como da classe produtiva para que esta exerça seu papel na produção de oportunidades gerando mais emprego, renda e atraindo mais gente para sair da miséria.
Só com essas nuances bem resolvidas, poderemos ter uma sociedade menos desigual, no nível do que tanto defendemos.
Pra que serve a Política Cultural?
Acostumado a conviver com a luta antiga dos artistas e dos grupos alijados do “Play List” – das canções que mais fazem sucesso – espero inserir novos valores para gerarmos conceitos menos rançosos e, quem saiba, possamos ser mais tolerantes com nossas diferenças.
Antes de chegar ao foco em si da polêmica atual, lembremos o cenário das Políticas Culturais vigentes nos Governos Federal, Estadual e Municipal.
No plano federal, por exemplo, por mais que promovamos de lutas incessantes até hoje não conseguimos estabelecer nas regras de partilhas dos recursos um tratamento decente mínimamente na distribuição da renda oficial advinda, por exemplo, da Lei Rouanet.
Mesmo com os avanços promovidos na gestão de Gilberto Gil – reformista importante no processo cultural brasileiro, ainda hoje os maiores volumes de recursos do cinema, musica, teatro, artes plásticas, etc ficam no Eixo Rio São Paulo. Mesmo o Nordeste com seus 9 estados tendo uma rica produção artística, 80% dos recursos ficam entre São Paulo, Rio, Minas, etc.
Governo serve para democratizar o acesso aos meios, sobretudo financeiros, visando – ai sim – fomentar quem não dispõe de condições econômicas produzidas pelo Mercado. Mas isto não pode impedir que artistas do “Play List” possam ter recursos dessa Lei, como aconteceu recentemente com Maria Bethania.
A prioridade, em tese, é de quem está desprovido de cobertura financeira de mercado mas, sem excluir absolutamente quem produz porque já dizia o maior dos inquietos baianos: “é proibido proibir”.
O caso da Paraíba
Por dever de justiça é preciso dar a Cida o que é de Cássio. Foi a gestão da cantora Cida Lobo ( leia-se Cássio Cunha Lima) na Secretaria de Cultura, quando tivemos pela primeira vez uma Lei de promoção e incentivo cultural bem definida. Teve seus primeiros ensaios com Chico Pereira, mas foi a moça quem implementou a norma de forma bem posta e abrangente.
Antes, na fase relevante do professor Neroaldo Pontes ( vide Cícero Lucena e Toinho Alcântara) na Secretaria de Educação e Cultural de João Pessoa tivemos a primeira ação formal de um Fundo de Cultura abrigando pela primeira vez a produção cultural nos seus diversos modelos e habilitações.
Cresceu mas encruou porque depois, já no segundo mandato, houve redução de volume e os recursos antes partilhados em sua maioria com a classe artística começaram a ser usados para eventos da Prefeitura tirando do bolo pequeno a parte dos artistas locais.
Na fase David Fernandes ( leia-se José Maranhão) tudo pareceu que iria deslanchar e acabou não se efetivando plenamente porque os projetos pararam na fase de desembolso, em face da estrutura ter emperrado na liberação dos recursos no ano de 2010 – fase da eleição, porque era fase proibida por lei. Ficou para depois.
A fase Ricardo /Luciano Agra
Não precisa ser expert em Cultura para enxergar que a fase recente dos Governos Ricardo e Luciano, em João Pessoa, inicialmente, expõe um cenário de investimentos na cultura de ponta – lá no grupo de bairro, no artista na praça - gerando equipamentos para exibição , com um calendário de atividades em diversas áreas, mais a produção do “Estação Nordeste” – maior evento de verão da cidade, bem como a nova fase de produção da “Paixão de Cristo”.
Há, concretamente, a presença de artistas locais nas políticas adotadas, mesmo assim infelizmente outros artistas que não comungam com a política do governo – e isso se aplica aos demais governos anteriores – não têm tido o mesmo aproveitamento, além do mais os cachês estão em valores muito abaixo do esperado pela classe. Fuba e Vital Farias são referências.
A fase do ator Luiz Carlos na Funjope mexeu, por exemplo, com a estrutura da Festa das Neves – e esta nunca mais foi a mesma – e, na fase Chico Cesar ficou evidente a programação musical já com o viés político de somente contratação dos artistas fora da musica de modismo, longe do tipo Pagodão, Forró de Plásticos, as “baboseiras”, segundo ele.
Chico tem trazido artistas e/ou atrações de valor distinto, como Buena Vista Social Club, entre tantos nessa vertente –, algo muito importante, sem duvidas, mas quem acompanha com atenção a cena cultural do Estado não poderia se impressionar com as declarações do Secretário da Cultura do Estado.
Em síntese, as estruturas de Governo na área de cultura estão aparelhadas para reproduzir uma lógica política e ideológica traçada por Ricardo Coutinho com este viés posto por Chico César assumindo assim todas as conseqüências porque o conjunto pensa em 12 anos de Poder no Estado. Os mais exagerados, como o vereador Bira, já pensam em presidência da República.
Seja como for, só não faz sentido a xenofobia, a intolerância e a segregação porque o mundo está globalizado mesmo.
Um pequeno fato apenas

Ano passado, durante o Réveillon, Chico César contratou Buena Vista Social Club e Armandinho para apresentação no Busto de Tamandaré.
À época, como havia confronto político com o então governador Maranhão, o Governo do Estado contratou a banda Calypso, cujo show aconteceu na praia do Cabo Branco.
Particularmente, eu e Carla ficamos em Tambaú, mas a multidão se locomoveu e se fez presente no outro show.
Enfim, quem é mesmo alienado ou segregador? Nós, o povo, a inteligência?
Saibamos que tudo se deu ao sabor da liberdade e da opção de cada um.
Síntese
Chico César está correto na sua lógica, na lógica do que ele defende, sabendo que tem muita gente ao redor discordando dessa práxis de política cultural.
Agora, uma coisa é verdadeira: todos precisam sobreviver.
 
Walter Santos (foto com Lula)
Empresário e Multimídia paraibano da Torrelândia