Gilvan Freire - Dinheiro, crises e fracassos no governo RC
10/06/2011
O mundo pode até acabar em volta de Ricardo Coutinho, e ele não baterá uma pestana. Só não se sabe qual seria a sua reação diante de uma tempestade próxima para onde ele estivesse olhando. Ou seja, um perigo ameaçador, mortal e iminente que ele pudesse ver a pouca distância, indo em sua direção. Por enquanto o Estado pega fogo e Ricardo faz que não vê. Mesmo quando antigos aliados das guerrilhas urbanas derrubam as portas do Palácio a sua procura para conferir se lá dentro está o velho companheiro de lutas que doutrinava sobre rebeliões dos trabalhadores públicos contra qualquer forma de opressão do poder. Todos querem saber porque o líder guerrilheiro mudou de voz e trocou de ouvidos, como se uma cirurgia plástica pudesse (como, aliás, já pode) modificar uma face humana inteira, e não apenas o nariz, a boca ou o queixo, que seria menos transformador. Aos líderes dos movimentos sociais não interessa a boca, e sim a palavra. Não interessa o ouvido, e sim a audição, porque acham impossível que Ricardo seja agora outro por completo, transplantado nele próprio. Só porque resolveu desaparecer, sumir, exatamente na hora em que todos precisavam encontrá-lo no lugar de relevo em que foi colocado quando ainda era ele mesmo, e não o outro. Mas, no palácio, não o encontraram e, revoltados à procura dele, depredaram o prédio de feições coloniais que já teve em suas paredes azulejos e mosaicos gravados com a suástica – símbolo em forma de cruz que foi adotado como emblema oficial do nazismo. Há de se compreender a revolta dos líderes sindicais. Eles se deram conta de que nunca mais achariam ali aquele Ricardo que por obra de uma operação reparadora e mutilante se transformou noutro, esquisito, distante, soberbo, inconvivível, com ares de semideus. Imagine-se qual não foi a frustração deles tendo de dizer aos demais (milhares de companheiros) que o Palácio está ocupado por um fantasma que já se chamou Ricardo e que não existe mais. Houve uma dor coletiva profunda, misto de decepção e tristeza. E saudades também. Tudo acontece porque Ricardo isolou-se dentro do governo e cuida de montar um estratagema de poder que não precisa mais ouvir a voz das ruas para se constituir. Seu poder já passou pelas ruas, está devidamente constituído, e precisa somente ser exercido em toda a sua grandiosidade. Significa não ter mais necessidade alguma de refazer caminhos por onde já passou. Além de tudo, Ricardo precisaria demonstrar a força que o poder tem para que todos que compreendam a força que tem no poder. É aqui onde o homem imita a arte. Que se lixem todos, porque Ricardo nunca gostou de ser contestado, muito menos pelos seus próprios companheiros. E também não é de ter comiseração com quem não votou nele. Ademais, não precisa de ninguém para ser governador, nem sequer dos mais influentes próceres que decidiram sua sorte. Quanto mais de eleitores anônimos que não conhece pelo nome e nem sabe onde moram. Encastelado, transformado, deslumbrado, Ricardo está de costas para o mundo. É por isso que não percebe que os furacões estão em sua volta. Confia, talvez, no dinheiro público que acumula como quem guarda alimentos para subjugar pobres em meio às calamidades da seca. Mas, para juntar dinheiro, já é obrigado a arruinar a vida de muita gente indefesa – não vale a pena ter que matar um para ter de dominar outro. Isso gera maldição. Conclui-se que o antigo Ricardo está morto, ou desaparecido. E o novo tem a cara do fracasso que o outro não tinha antes da transformação. Um está destruindo a memória do outro. E o dinheiro está à espera de um dono, um gestor que, ao que parece, não tem a face de nenhum dos dois. É como a botija enterrada pelo avarento infeliz, que só não serve para quem a enterrou. Se o dinheiro público não tem a finalidade de combater o mal e fazer o bem, não tem valor e nem utilidade humana.
Este artigo integrará o futuro livro: ‘PREVISÕES POLÍTICAS DE UM VIDENTE CEGO’ E-mail: gilvanfreireadv@hotmail.com
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